terça-feira, 6 de setembro de 2011

Empreendedorismo e Franchising em Portugal

Portugal partilha uma realidade comum às restantes economias europeias. Como refere um estudo do IAPMEI (2008), as PME são dominantes na estrutura empresarial nacional, representando 99,6% das sociedades do país e criando 3/4 (75,2%) dos empregos (setor privado). Efetivamente, as PME, nomeadamente as micro e pequenas empresas, assumem-se como pilar das estruturas empresariais, contribuindo para o desenvolvimento económico e social.
A assumpção do risco por parte dos seus responsáveis, a flexibilidade e a inovação que as caracteriza, na busca consciente de soluções e na criação de emprego determinam a sua importância. O Franchising tem um papel fundamental nesta área, promovendo a criação de inúmeras microempresas.

O protagonismo do Franchising é cada vez maior em Portugal; o número de marcas, em particular de marcas nacionais, a criação de emprego e o volume de negócios tem vindo a crescer, acentuando-se esse crescimento no período de 2006 a 2009 como revelam as recentes estatísticas divulgadas (setembro, 2010 – EFF e associações nacionais de Franchising). Apesar deste crescimento, tal como noutros setores da economia, continuamos a ter um elevado número de insucesso e falência nos primeiros anos de atividade.

Sabemos que existem inúmeras vantagens e desvantagens associadas ao modelo de negócio do Franchising, tal como em qualquer outro modelo de negócio; das principais causas de insucesso, salientamos aqui a falta de formação e, por inerência, de competências necessárias para a gestão e expansão de uma empresa franchisada e mesmo franchisadora. A verdade é que a maior parte das empresas franchisadoras, na venda da franquia, incluem já uma Formação inicial. Todavia, apesar dos manuais e conteúdos das formações apresentarem, em alguns casos, uma qualidade de referência, preferencialmente, incidem no know-how e na assistência técnica, específicos do produto/serviço a comercializar, esquecendo componentes fundamentais – a comportamental e a técnica que sustentam o próprio know-how.
Consideramos, pois, que é necessária uma aposta por parte dos franchisadores e dos franchisados numa formação técnica, nas suas múltiplas vertentes – Estratégia, Finanças, Projetos de investimento, Marketing, etc. A aposta numa formação técnica possibilitará o desenvolvimento de competências empresariais, as quais implicam também uma formação comportamental que promova, em paralelo, o desenvolvimento de competências empreendedoras – Liderança, Motivação, Trabalho de equipa, entre outras, potenciando processos e procedimentos de gestão e, consequentemente, viabilizando o aumento das vendas.

A formação será sempre a alavanca para a diferença, que se procura para o tecido empresarial e para uma cultura empreendedora, ainda incipiente, que se quer e deseja fortalecida. O facto da União Europeia e da UNESCO, apontarem para a necessidade de um espírito e de uma cultura empreendedora reforçam esta ideia.

Artigo publicado na edição de novembro/dezembro 2010 da Revista Negócios e Franchising.

Governo dá mais 12 meses às PME para pagar empréstimos

As empresas beneficiárias das linhas PME Investe podem, a partir de hoje, pedir a extensão do crédito por um período de 12 meses, pagando apenas os juros e sem amortizar capital, uma medida que agrada à banca nacional.

Em declarações à Lusa, o secretário de Estado do Empreendedorismo, da Competitividade e da Inovação, Carlos Oliveira, argumenta que «o Governo olha com particular preocupação para a falta de liquidez que o tecido empresarial português tem neste momento, bem como as dificuldades de acesso a crédito».

Carlos Oliveira explicou tratar-se de «uma medida transitória, no sentido de fazer um apoio indireto às empresas na sua tesouraria», ou seja, «é um apoio indireto no sentido em que as empresas que têm planeado os reembolsos das linhas de crédito para os próximos 12 meses, ou 12 meses após a adesão a esta extensão, poderão usar este capital para a continuação da sua atividade, em particular, para as empresas exportadoras».

Inovação, empreendedorismo, competitividade, internacionalização

É necessário mais Inovação, mais Empreendedorismo, maior Competitividade e mais Internacionalização das empresas portuguesas.

Ouvimos estas afirmações todos os dias, provenientes de responsáveis políticos, académicos, empresários e sindicais, mas raramente estas declarações genéricas, bem intencionadas, vêm acompanhadas da referência aos instrumentos e processos que conduzam à sua implementação e concretização.

J. Pfeffer afirmava no capitulo "Organizações onde a Conversa substitui a Acção" do seu livro "The Knowing - Doing Gap", que neste tipo de organizações, existe a convicção de que "as pessoas acreditam que, porque disseram e está na declaração da missão, deve ser verdade e deve acontecer na organização" e "falar muito é confundido com fazer muito", reflexões que me parecem úteis para enquadrar o que ocorre neste momento no nosso país.

A utilização sequencial destas quatro variáveis, promove, de facto, um ciclo virtuoso de crescimento e de desenvolvimento, ou seja, processos de Inovação bem sucedidos, sobretudo os que incluírem uma considerável incorporação tecnológica, que sejam objecto de acções de Empreendedorismo para a sua utilização nos mercados globais, promovem um aumento da Competitivdade do tecido produtivo nacional, permitindo-lhe enfrentar com maior confiança e rentabilidade os processos de Internacionalização, acrescentando valor à economia portuguesa.

Olhemos, então, para os instrumentos que seriam necessários para tornar possível este sonho, de aproximação aos países mais ricos e mais desenvolvidos:
• Centros de Inovação e de registo de patentes nas Universidades
• Institutos de Investigação Aplicada com um focus Internacional
• Centros de pré-Incubação, incubação e desenvolvimento empresarial
• Sociedades de capital semente e de capital de risco
• Parques tecnológicos com especialização em diferentes "clusters" tecnológicos
• Redes de cooperação internacional no âmbito da inovação
• Entidades de divulgação e promoção internacional das "start-ups" inovadoras.
• Redes digitais de partilha de informação e cooperação tecnológica e empresarial.

Não é necessário determos um conhecimento aprofundado sobre a realidade nacional nestes domínios, para sabermos da enorme fragilidade deste conjunto de instrumentos, que são incipientes e em alguns casos quase inexistentes, para compreendermos a razão pela qual este circulo virtuoso de desenvolvimento tarda em iniciar-se.

Mas a existência destes instrumentos é condição necessária, mas não suficiente, para garantir a implementação e concretização do conjunto de acções que tornam este caminho uma realidade.
No âmbito da implementação e concretização é necessário que se verifique o seguinte conjunto de condições:
• Caracterização e divulgação destas entidades, assim como dos respectivos regulamentos de candidatura e utilização
• Relatórios e Contas detalhados destas unidades, com "bench-marking" internacional
• Gestão profissional e competente das várias unidades, com avaliação da performance e a construção de um sistema de prémios e classificações negativas
• Avaliação e reforço permanente das redes de cooperação tecnológica e empresarial
• Integração deste sistema de inovação e empreendedorismo nas redes e entidades nacionais e internacionais de fomento da internacionalização e globalização.

Infelizmente, a situação actual deste sistema é preocupante e constrangedora, por força da inadequação dos seus instrumentos e da sua gestão completamente ineficaz.

Não vale a pena prosseguir-se no caminho do "é necessário mais…." sem uma avaliação permanente e cuidadosa das acções concretas afectas a este sistema, por entidades independentes e com uma aproximação internacional.

Se não o fizermos, continuaremos a assistir aos passeios pelos inúmeros congressos internacionais que existem nestes domínios, dos dirigentes destas organizações que continuarão a não acrescentar qualquer valor significativo à economia portuguesa.

E. com estes maus exemplos, desmobilizaremos os pequenos e reduzidos núcleos de profissionais, que tentam resistir a este desregramento nacional e contribuir para a construção dum país, intelectualmente mais desenvolvido e mais prospero.

domingo, 4 de setembro de 2011

Empreendedor serial, André Nudelman cria companhias como filosofia de vida; negócios vão de granjas a rede de escolas bilíngues

“Patológico” é, com bom humor, como o empresário André Nudelman define seu apetite por criar novos empreendimentos. Aos 53 anos, Nudelman já tem em sua conta a abertura de nada menos que 32 empresas, em frentes tão díspares quanto um restaurante de comida típica nordestina ou uma rede de lojas de brinquedos. Mesmo para empreendedores tarimbados, é um ritmo estonteante: a média do empresário é de quase uma empresa aberta por ano ao longo de sua vida adulta.

Nudelman entrou no mundo dos negócios por força de circunstâncias pouco felizes. Logo depois de completar 20 anos, quando cursava Direito na Universidade de São Paulo (USP), o empresário tomou as rédeas da incubadora de aves comandada por seu pai, que tinha acabado de falecer.

A Granja Colorado, como se chamava a companhia, cresceu, mas não estava imune ao conturbado cenário econômico do Brasil de meados da década de 1980. “A empresa estava alavancada com recursos do crédito rural, mas o governo suspendeu as operações”, conta o empresário. Com a incubadora endividada, Nudelman teve que vendê-la. Ele tinha 25 anos.

Tempos depois, o empresário mudou-se para Maceió – e foi na capital alagoana um dos momentos mais prolíficos de sua vida de neopatrão. Em um intervalo de cinco anos, ele teve na cidade um restaurante italiano, um de comida típica local, duas pizzarias, uma boate e uma distribuidora de cigarros. Alguns dos negócios foram tocados de forma simultânea.

"Serial entrepreneur"
“Se existe o ‘serial killer’, existe o ‘serial entrepreneur’. Sou o empreendedor em série”, diz Nudelman. E, na explanação sobre um dos talentos mais evidentes de sua vida profissional, o empresário toca no ponto que, para gente menos experimentada na vida corporativa, é um calcanhar de Aquiles. “A mesma facilidade que tive para abrir uma empresa eu sempre tive para fechar”, diz. “As pessoas são muito apegadas (ao negócio). Talvez mais importante que abrir uma empresa é saber a hora de fechar”.

Cerrar as portas de um empreendimento continua a ser o destino indesejado, e não a opção, da maioria dos novos empresários brasileiros. Segundo levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em São Paulo, 58% das empresas não passaram do quinto ano de vida – os dados foram apresentados em 2010. O dado não deixa de ser um alento – dez anos antes, afinal, a taxa de mortalidade nos mesmos cinco anos era de 71% –, mas o número ainda é considerado alto pelo Sebrae.

Empreendedores seriais permanecerão como ponto fora da curva nas estatísticas. Mas, mesmo com a nuvem negra da mortalidade das empresas, que permanece espessa, o empreendedorismo avança no País. De acordo o levantamento do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), o brasileiro é o povo mais empreendedor entre todos os países do G20. O estudo é realizado todo ano e sua última versão, que mapeou dados de 60 países, foi apresentada em abril.

Segundo o GEM, 17,5% da população adulta do País é formada por empreendedores em estágio inicial, um universo de 22 milhões de pessoas – número equivalente ao da população da Austrália. Quase 60% dos novos empresários brasileiros abriu seu negócio com menos de R$ 10 mil.

No papel de empregado
André Nudelman, que já engrossava as estatísticas brasileiras sobre criação de empresas antes mesmo do boom recente, achou que seria uma boa ideia testar seu tino para negócios em terra estrangeira – e, depois da temporada em Maceió, muda-se para Miami, nos Estados Unidos. Mas o ímpeto durou pouco. “Percebi que, lá, eu seria, para os americanos, só mais um cucaracha. Além disso, o investimento teria que ser bem maior por causa do trabalho pessoal: eu não conhecia os fornecedores, a lei e os consumidores”. A estada em Miami estendeu-se por seis meses.

No retorno, ele teve um estalo. A mortalidade de empresas era (na época) de 80% – e , no universo de 20% de empreendimentos que prosperavam, 70% eram criados por ex-executivos de grandes companhias. Era hora de aprender com quem sabia fazer um novo negócio passar a rebentação dos primeiros anos de vida.

Nudelman passou três anos na American Express, primeiro na área de vendas e, depois, como gerente mais graduado, na área de marketing, mesmo sem ter formação na área. “O fato de não ser formado é uma vantagem tremenda”, diz. “Você pode trabalhar com qualquer coisa”.

A afirmação está relacionada à liberdade de escolha, ressalva o empresário, e não a um pretenso desprezo pela educação formal. Durante os anos de empreendedorismo, Nudelman fez MBA e incontáveis cursos gestão e aperfeiçoamento de suas habilidades.

Brinquedo, ruim; escola, bom

Vieram outras iniciativas nos anos subsequentes: uma rede de franquias de venda e locação de jogos para videogame, que chegou a ter 32 unidades no País, sociedade em uma rede de lojas de brinquedos, a desenvolvedora de um software de compras usado por lojistas de roupas, um fundo de investimentos, entre outros. (Sobre a venda de brinquedos, ele faz a anotação: “parecia bom, mas foi o pior negócio. Todo o estoque era consignado, mas 75% das vendas se concentram em três semanas do ano”).

Nudelman decidiu procurar melhor qualidade de vida e, há oito anos, mudou-se para o Canadá. Há sete, em uma joint venture com o grupo canadense Global Schools (cada um tem 50% do negócio), ele inaugurou as primeiras escolas da Maple Bear no Brasil. Entre unidades já abertas ou em fase de certificação para início de operações, a rede de escolas bilíngues já tem 41 endereços no País.

O empresário é dono de 50% da joint venture, mas é prático ao admitir suas limitações. “Procuro não me envolver muito em decisões administrativas”, afirma. “Sou um gerente incapaz. Não perco meu tempo fazendo o que não sei”.

Em sua 32ª iniciativa empreendedora, Nudelman diz que se sente emocionado nas visitas às escolas, feitas em suas quatro viagens anuais ao Brasil (“a educação transforma o País, e formar a elite é tão importante quanto formar o restante da população”). Mas, mesmo realizado, ele se mantém fiel às lições de sua vida de criador de empresas: as portas para eventuais investidores em seu negócio nunca estarão totalmente fechadas.


Pensamento positivo

Haverá um momento em que o governo vai perceber que a estratégia da depressão não funciona. Insistir que estamos mal mas ainda vamos estar pior no futuro, não é certamente a melhor maneira de animar as pessoas e, sobretudo, de relançar a economia.

O resultado está, aliás, à vista. Os consumidores não consomem, os investidores não investem, a iniciativa estagnou e o famoso empreendedorismo, que nunca abundou por estas bandas, perdeu o pouco incentivo que lhe restava. Alguém arrisca montar um negócio neste ciclo de recessão?

O governo acha que procede bem, pois deve falar verdade. E deve. Só que para além da componente informativa também é tarefa de qualquer governo transmitir estímulo e positivismo. Um governo, qualquer governo em democracia, tem por missão mobilizar os cidadãos numa perspetiva positiva e empreendedora. Ou seja, cortar nas finanças públicas é bom; cortar na autoestima dos portugueses é mau.

Dirão que, seguindo aquelas fórmulas do maquiavelismo de trazer por casa, se trata de fazer todo o mal agora para mais próximo das eleições distribuir então o dinheiro, as benfeitorias e o entusiasmo. É duvidoso. Por este andar o retrocesso económico será maior do que o esperado, a receita dos impostos menor, o desemprego galopante e só mesmo o consumo de antidepressivos crescerá em Portugal nos próximos tempos. O negativismo é viral.

E, no entanto, o assunto está profusamente investigado, registado e explicado. Nos últimos anos temos assistido à multiplicação de estudos, edição de milhares livros e realização de incontáveis conferências sobre a importância do pensamento positivo na vida das pessoas, das empresas e da sociedade em geral. Deste interesse nasceu mesmo na década de 90 uma nova disciplina chamada Psicologia Positiva.

É evidente que existe muito charlatanismo à mistura. Há quem faça carreira a vender pensamento positivo em pastilhas ou através de truques de prestidigitação. E, claro está, as religiões nunca perdem comércios lucrativos destes. Já para não falar dos admiradores de culturas exóticas que imaginam que pensamento positivo é sentar de pernas cruzadas a meditar banalidades e não fazer nada.

Apesar disto o assunto é mesmo sério. Embora seja de considerar alguma componente genética no otimismo, base emocional do positivismo, são sobretudo os fatores ambientais que ampliam essa sensação, inata na espécie humana, de que "as coisas vão correr bem". Este impulso positivo, produtivo na resolução de problemas e na ação corrente, parece ser também essencial para a saúde e superação de doenças.

Pelo contrário, a visão negativa do "tudo vai correr mal", deprime e incapacita as pessoas de agir para além de, como está provado, fazer muito mal à saúde. A depressão, por exemplo, favorece as infeções.

O pensamento positivo é pois essencialmente de ordem subjetiva, determinado pelas condições ambientais. Nos indivíduos, certos contextos geram uma predisposição para enfrentar a realidade com uma atitude positiva, ganhando coragem e energia para a ação. Efeito que se revela contagiante produzindo por vezes verdadeiras ondas socais de entusiasmo e positividade. Portugal viveu esse clima durante a Expo98. No futebol também é comum.

O pensamento positivo tem também sido bastante estudado no campo da economia. Muitos autores demonstram como a criação nas organizações de ambientes propícios ao pensar positivo é fundamental para o desenvolvimento de estratégias globais, sinergias, processos de cooperação e inovação.

Mas é naturalmente na economia da sociedade que a questão se põe com mais acutilância. Uma sociedade deprimida e derrotada, onde impera o negativismo e o fatalismo, tem muita dificuldade em gerar as energias necessárias para enfrentar as dificuldades e as resolver de forma satisfatória. Como está à vista de todos Portugal atravessa um desses momentos.

É por isso que, apesar da boa vontade, de muita ingenuidade e, concedo, do desejo de fazer o melhor possível, tem faltado a este governo a compreensão dos mecanismos base das sociedades contemporâneas. Não é por acaso que os anúncios só têm sorrisos.


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

Cultura e empreendedorismo

Na sua relação com os trabalhadores, as empresas têm um papel a desenvolver, fomentando o intra-empreendedorismo, através do estímulo à concretização de ideias e do seu patrocínio.
Habituamo-nos a aceitar ou criticar o estado das coisas, a acção ou inacção das pessoas, os estilos de liderança e as formas de organizar as empresas como sendo uma inevitabilidade da cultura nacional. Quantas vezes na nossa vida pessoal ou profissional damos connosco a pensar ou a dizer coisas como "para pior antes assim" ou "mais vale um pássaro na mão que dois a voar" ou, recorrendo à gíria futebolística, "em equipa que ganha não se mexe"?

De facto, ignoramos frequentemente que um conjunto de valores e experiências consubstanciadas no tempo acabaram por criar uma matriz de pensamento e acção que determinam em grande parte os nossos estilos e modos de pensar e agir.

Neste âmbito, alguns especialistas da área têm vindo a apresentar uma caracterização geográfica da cultura de países ou regiões que nos têm ajudado a compreender melhor as nossas opções em termos de empreendedorismo.

Portugal caracteriza-se(1) essencialmente pela elevada distância hierárquica, espírito colectivista, postura afiliativa e de pertença e elevadíssima tendência para o evitar da incerteza.
Em contexto de trabalho, o nosso esforço orienta-se para a harmonia das relações sociais, a valorização da cooperação em detrimento da competição e do conflito, a sensibilidade dos subordinados aos modelos afiliativos de chefia e a tendência para comunicar de forma pouco assertiva embora social e emocionalmente aberta.

Com o mercado de trabalho essencialmente ancorado no trabalho por conta de outrem e no funcionalismo público, a cultura nacional tem vindo a reforçar as condições de controlo da incerteza através da garantia de salário e contrato sem termo. Actualmente, porém, vive-se um período de inflexão nesta tendência. O aumento das taxas de desemprego e a maior precarização do trabalho impõem mudanças fazendo emergir a necessidade de um maior empreendedorismo. Algumas escolas, universidades e associações vêm assumindo este desafio alterando os seus programas e acções, porém impõe-se uma mudança generalizada de mentalidades. Este processo de fomento ao empreendedorismo potencia não só a criação de emprego, como a inovação e a produtividade, condições para o crescimento da economia.

Várias podem ser as motivações para o empreendedorismo, como sejam: a necessidade (quando por incapacidade de integração no quadro económico tradicional se desenvolvem iniciativas de subsistência ou mesmo de pirataria), a vocação (quando em situação de liberdade de acesso ao mercado se opta pela adopção de risco de negócio autocentrado), a inércia (quando por legado ou consistências das relações interpessoais se mantêm os negócios ou a iniciativa) ou conhecimento (em que a geração de negócio é feita a partir da capacidade de conversão do conhecimento em valor, associado a ambientes de inovação).

Também neste domínio, as empresas na sua relação com os trabalhadores têm um papel a desenvolver através do fomentar do intra-empreendedorismo, ou seja, através do estímulo à concretização das suas ideias, do seu patrocínio e da criação de condições de liberdade e espaço para a acção. Saliente-se que, no âmbito da empresa, a liberdade de expressão e de divulgação do pensamento e opinião assume particular relevância encontrando-se expressamente regulado no Código do Trabalho (Lei n.º 07/2009, de 12 de Fevereiro).

Neste contexto, o intra-empreendedor, em vez de criar novos negócios em espaço pessoal, opta por procurar novas iniciativas para a própria empresa em que trabalha, possibilitando desta forma o desenvolvimento da empresa, a clarificação da sua missão, o recentrar do foco da acção no cliente e no produto e a simplificação funcional através da reorganização dos fluxos de trabalho.

A empresa pode fomentar este clima interno de empreendedorismo através de uma cultura de escuta e participação permitindo ao trabalhador a integração na gestão, a participação no capital ou nos resultados da empresa e o premiar e reconhecer a qualidade da iniciativa individual.

A empresa pode, ainda, fomentar o intra-empreendedorismo mediante investimentos significativos na formação profissional dos trabalhadores, sem prejuízo para si própria. Na verdade, a Legislação vigente prevê a possibilidade do empregador poder convencionar com o trabalhador no sentido deste se obrigar a não denunciar o contrato de trabalho por um período não superior a três anos como compensação ao empregador pelas despesas avultadas feitas com a sua formação profissional. Este acordo é comummente designado de Pacto de Permanência e pode integrar o próprio contrato de trabalho ou ser celebrado durante a sua execução.

Note-se que a referência legal a "despesas avultadas" nesta matéria contrapõe-se à noção de despesas correntes em matéria de formação profissional, ou seja, trata-se de despesas feitas pelo empregador num tipo de formação que exceda a obrigação genérica de formação profissional.

Caso o trabalhador pretenda desobrigar-se do cumprimento de tal acordo terá de efectuar o pagamento do montante correspondente às despesas suportadas pelo empregador. Contudo, não haverá lugar ao reembolso das despesas se o trabalhador tiver resolvido o contrato com justa causa ou se tiver sido objecto de um despedimento ilícito e não tiver optado pela reintegração. Este requisito estabelece limites de razoabilidade que asseguram a conformidade da restrição ao princípio da liberdade de trabalho constitucionalmente previsto.

Não se acredite, porém, que o empreendedorismo é a solução milagrosa de aplicação generalizada que permite a resolução de todos os problemas da empresa ou da sociedade. O intra-empreendedorismo, quando mal gerido, pode exacerbar a competitividade interna para além do desejável, introduzir limiares de excelência inatingíveis ou fomentar o desenvolvimento de relações privilegiadas de favorecimento interno.

Tome nota
1. A matriz cultural determina, em grande parte, os nossos estilos e modos de pensar e agir;
2. O aumento das taxas de desemprego e a maior precarização do trabalho impõem mudanças no contexto de trabalho, fazendo emergir a necessidade de um maior empreendedorismo;
3. As motivações para o empreendedorismo são diversas mas a aversão ao risco e à incerteza são um factor determinante para a sua contenção;
4. As empresas, através do estímulo à concretização das ideias dos trabalhadores, do seu patrocínio e da criação de condições de liberdade e espaço para a acção podem fomentar internamente o empreendedorismo.



(1) Vide Modelo tetra-dimensal de Hofstede apresentado por exemplo em "Culture's Consequencies" ou "Cultures and Organizations:Software of the Mind"

Empreendedorismo: Portugueses escolhem ilha da Páscoa para lançar programa de publicação digital

A Claan, uma jovem empresa portuguesa, vai lançar, junto dos rapanui da Ilha da Páscoa, o protótipo de um programa de edição digital para plataformas móveis, fruto do investimento do governo chileno através de um programa para empreendedorismo.

Clara Vieira e Andreas Eberharter, a portuguesa e o austríaco fundadores da Claan, já tinham desenhando e desenvolvido de raiz um sistema que permite transformar documentos pdf, o formato correntemente aplicado na indústria gráfica, em publicações digitais interativas para a internet.

O desafio que propuseram ao programa do governo chileno Start-Up Chile foi transpor este sistema, o Leafer, para as plataformas móveis, nomeadamente para o iPad.

Com a versão Beta a ser ultimada, após dois meses naquele país sul-americano, acharam que um dos territórios mais isolados do mundo, com os seus 1000 habitantes rapanui, era o cenário ideal para lançarem o seu programa na segunda feira, dia 30 de agosto.

“Ao proporcionar aos rapanui a utilização do nosso sistema acho que também estamos a ajudá-los a ser empreendedores”, afirma Clara Vieira a partir da capital Santiago, adiantando que gostaria que o gesto ajudasse também “à aproximação dos habitantes locais ao Chile”, já que o território mantém alguma antipatia ao país que integra.

Um jornal, os hotéis e as escolas de surf são alguns dos potenciais utilizadores gratuitos do Leafer que, segundo Clara Vieira, tem “usufruído das sinergias com outras empresas” e com o “trabalho de programadores chilenos e brasileiros”, seguindo um dos pressupostos do projeto, a criação de empregos.

Os fundadores da Claan, uma empresa incubada no Pólo das Indústrias Criativas da Universidade do Porto (UPTEC), ainda vão ficar mais quatro meses em Santiago, podendo estender a sua permanência por mais dois meses.

No final do projeto, financiado pelo governo do Chile com cerca de 30 mil euros, o programa deverá estar disponível para o público na Apple Store.

A facilidade com que têm ultrapassado todos os processos burocráticos no Chile é um dos contrastes com a realidade portuguesa que Clara Vieira destaca como positivo.

Foi para resolver um problema prático que os designers Clara Vieira e Andreas Eberharter, que se conheceram no programa Erasmus, criaram o programa Leafer. Perante a dificuldade e o elevado custo para transpor a revista tecnológica da Siemens austríaca para um formato digital, decidiram criar uma plataforma de raiz que lhes simplificasse o trabalho.

O Leafer permite em minutos transpor os artigos de uma revista e incorporar novos elementos interativos.

A candidatura ao programa chileno foi uma forma de prosseguir o desenvolvimento do Leafer, de poder abordar o mercado sul americano mas, para Clara Viera, “é também a oportunidade de trabalhar com pessoas de todos os pontos do mundo que acreditam nas suas ideias e que têm ideias que realmente podem fazer a diferença”.

Até porque ela acredita no empreendedorismo inovador, lembrando a opinião de do antigo diretor da Cisco Systems Diogo Vasconcelos, recentemente falecido, “que acreditava que o futuro de Portugal passava por aí”.