terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Liderar para a Criatividade

Não quero que faças como eu, quero que faças como tu!
Jacques Lecoq
Como pode o líder despertar o clown entusiasmado e empenhado e eclipsar o clone apático das pessoas? Como liderar para mobilizar o máximo do potencial criativo dos colaboradores?

Há tempos, frequentava um curso nos Estados Unidos no qual estava presente uma chefia da Apple, Duke, um texano enérgico e bem-disposto. Num coffee-break disse-lhe que estava a escrever um livro sobre criatividade e que gostava de saber a sua opinião sobre as causas de na sua empresa as pessoas serem tão criativas. Ele olhou para mim, respirou fundo e disparou: “Porque nos permitem sê-lo!” E depois de desfilar aqueles factos de gestão da Apple que estão nos livros, terminou dizendo: “Ah, e também porque nos deixam ser quem somos”.
Como já vimos, quando a liderança não nos deixa ser quem somos, aumentamos o esforço para corresponder às expectativas e isso habitualmente significa ficar igual aos outros. E uma empresa de pessoas iguais umas às outras é uma empresa igual às outras! «Não faz sentido contratar pessoas inteligentes e depois dizer-lhes o que têm de fazer. Nós contratamos pessoas inteligentes para que nos digam o que temos de fazer», disse Steve Jobs.
Um líder para a criatividade deve habituar-se à ideia de que é bom trabalhar com pessoas que discordem de si, desde que seja uma discordância preocupada com o todo; deve aceitar que elas vão brilhar mais do que ele porque serão mais talentosas e saberão mais e melhor acerca de diversas matérias.
Um líder para a criatividade deve aceitar que não pode controlar tudo e que tem de confiar e arriscar com a equipa; terá de ser mais tolerante aos erros do que os outros, pois como sabemos não há experimentação sem erro, e portanto resta-lhe certificar-se de que as pessoas aprendem com esses erros. Um líder para a criatividade deverá, como disse Phil Daniels, «recompensar os fracassos excelentes e castigar os sucessos medíocres».
Tive a oportunidade de colaborar na filmagem, em Nova Iorque, de uma entrevista a Marivaldo dos Santos, elemento do grupo de percussão STOMP. Eles fazem um espetáculo criativo que consiste em fazer sons de percussão e ritmos em equipa com objetos inesperados, tais como vassouras, caixotes do lixo, caixas de fósforos, garrafas de água, etc. O conceito foi desenhado por um criador inglês que agora o coloca nas mãos de quatro equipas (duas nos Estados Unidos e duas na Europa), que o adaptam e improvisam de acordo com as características dos seus elementos. Marivaldo diz que é o mesmo espetáculo mas quatro formas diferentes de o representar, pois cada equipa tem necessidade de sentir que contribui com algo seu para o conceito inicial. Quanto aos líderes, diz: “dão-nos toda a liberdade e a sua única função é certificarem-se de que o espetáculo não deixa de ser o que é”. Quando lhe foi perguntado quais são as regras de funcionamento duma equipa criativa como esta, respondeu: “respeito, não ter demasiado ego individual e profissionalismo”.
Parece que quando a equipa tem a elevada maturidade de partilhar a liderança entre os seus membros pode mesmo dispensar a figura do líder formal. É o caso da Orpheus Chamber Orchestra de Nova Iorque que apresenta espetáculos há quarenta anos sem um maestro, tendo ganho já diversos prémios importantes.
São três as funções-chave de um líder para a criatividade:
- Composição da equipa
- Provocação e facilitação
- Validação dos resultados
No momento da composição da equipa, certifique-se primeiro que contrata pessoas que estão alinhadas com os valores do seu projeto e que mostram o brilho nos olhos do entusiasmo de que falamos antes. Depois constitua equipas com pessoas de formação e funções diversas: misture especialistas com principiantes, artistas com juristas, engenheiros com porteiros, etc. Neste mundo da formação em que me movo, a empresa de consultoria mais criativa com que trabalho junta na mesma mesa para discutir projetos: gestores, psicólogos, cozinheiros, cantores, atores, palhaços, alpinistas, atletas, treinadores, etc. A vantagem é que cada um transporta para a discussão ideias que expressam a sua visão do mundo e esse jogo obriga a uma constante e estimulante mudança de perspetiva da equipa.
Por último, certifique-se de que também tem formas de pensamento diversas e complementares. É importante que tenha na mesma equipa sonhadores e controladores, analíticos e relacionais, pois em cada fase do processo criativo serão necessários diferentes tipos de pensamento como veremos à frente.
Na fase da provocação e facilitação confirme que o objetivo está claro para todos, que os valores da equipa são respeitados e deixe fluir livremente a dinâmica e os contributos de todos. Evite impor-se demasiado. Torne-se, no entanto, um agente provocador se sentir que as pessoas estão a voltar para o seu espaço de conforto e a perder o foco. Encontre formas de ativar a criatividade e lembre o objetivo e os prazos a cumprir. Depois quem joga são os jogadores, quem cria são os criadores.
Na fase final, verifique se as ideias respeitam a sua visão, se estão dentro da identidade que quer preservar para o projeto em causa, e assuma as consequências com a equipa, quer o resultado seja um fracasso ou um sucesso.
No discurso de aceitação do Óscar, Robert Altman disse que «o papel do realizador é criar um espaço onde atores e atrizes possam ser mais do que alguma vez foram, mais do que sonharam ser». De facto, liderar para a criatividade implica contagiar a equipa com uma visão gigante, alcançável só por alguns, e por isso estimulante. Os criativos gostam de sentir que são liderados por pessoas que procuram a superação e desafiam o ‘impossível’!

Para terminar, lembre-se de ser autêntico. É difícil conseguir libertar a espontaneidade das pessoas se não lhes dermos também a nossa verdade. Philippe Gaulier, professor de teatro e mestre de alguns dos melhores clowns mundiais, diz acerca da liderança: «Sem o saberem a maior parte das pessoas é profundamente chata. Há uma simples razão para isso: estão a seguir um mau guião. Os grandes líderes sabem-no instintivamente; outros aprendem-no: não é preciso representar um papel. Seja apenas você próprio! Esteja confortável e com prazer na sua própria pele e com quem realmente é. O nosso amado papel é que nos está a manter pequenos. Seguir papéis e guiões leva à autoconsciência. E a autoconsciência cria barreiras entre as pessoas. Pára toda a ação… E é chato. Aborreça as pessoas e perderá a sua atenção – e permissão para as liderar. Para ser um líder terá de deixar de ser chato» .

(Adaptado do Livro “De Clone a Clown – A arte de ter (e vender) Ideias Criativas”, Vítor Briga, Editora Vida Económica, 2012).

 

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