domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ex-trabalhadores da Qimonda lançam os seus negócios

Artur Fonseca, Ricardo Silva e Rúben Silva passaram de desempregados a empresários com o apoio do Fundo Europeu de Ajustamento à Globalização. Conheça as histórias de quem viu no desemprego a oportunidade para lançar o seu negócio.

Reparar CDI. Era este o sonho de Rúben Silva, 31 anos, ex-técnico de manutenção da Qimonda: queria consertar as unidades electrónicas que fazem o controlo da ignição das motas.
O desemprego deu-lhe tempo para aprofundar os conhecimentos na área e a paixão por motas existia desde os 15 anos. Faltava-lhe o essencial para empreender: capital. Quando soube da existência do programa de formação - acção da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) dinamizado pelo IEFP - Instituto de Emprego e Formação Profissional, com o apoio do Fundo Europeu de Ajustamento à Globalização (FEG) tinha as condições necessárias para avançar. Chave na ignição. Chegou a hora de arrancar.

No início de 2009, a Qimonda, maior exportador português com sede em Vila do Conde, entrou em processo de insolvência. Incapaz de satisfazer os seus compromissos financeiros, o encerramento da fábrica da multinacional alemã deixou 914 portugueses sem emprego. Em Outubro de 2010, a Comissão dos Orçamentos do Parlamento Europeu aprovou a mobilização de cerca de 2,4 milhões de euros do FEG a favor de Portugal, para apoiar 839 dos 914 trabalhadores despedidos da Qimonda. O pacote de assistência previa medidas como o reconhecimento de competências, formação profissional, formação e apoios com vista à criação de empresas, ajudas à auto-colocação e incentivos ao recrutamento e prática profissional adquirida no local de trabalho.

"O suporte técnico que prestamos tem-se revelado essencial para capacitar os formandos para o empreendedorismo", afirma Cottim Oliveira, membro do conselho de gestão da ANJE, um dos parceiros do programa dinamizado pelo IEFP com o apoio do FEG. É através deste programa de formação - acção que a associação tem contribuído para a criação de novos projectos empresariais, capazes de absorver desempregados.

Na primeira etapa, os ex-trabalhadores frequentam um plano formativo de 20 horas, onde são veiculados conhecimentos no domínio das Técnicas de Gestão e também do Empreendedorismo. Depois, segue-se a fase em que os promotores são acompanhados pela ANJE na elaboração do plano de negócio. "Este documento constitui a candidatura entregue no IEFP para financiamento do projecto", explica Cottim Oliveira. Uma vez conseguida a aprovação, os empreendedores têm um mês para criar a empresa e podem contar com o apoio consultivo da ANJE durante o primeiro ano de actividade.

Na primeira edição participaram 19 formandos, que já concluíram a fase inicial e aguardam a aprovação para passar á execução do projecto. Deste grupo, resultam sete empresas. "Sabíamos que não seria fácil. Estes profissionais foram vítimas do actual contexto de crise e, por isso, têm uma maior percepção do risco. Percepção essa que, por si só, constitui um entrave ao empreendedorismo", comenta Cottim Oliveira.

O segundo grupo, composto por 10 elementos, acaba de iniciar o mesmo percurso. A selecção dos participantes é feita pelo próprio IEFP, que reencaminha para a ANJE os profissionais que manifestam vontade de empreender para contornar o desemprego. "Muitos formandos acabam por desistir quando percebem que não têm perfil empreendedor ou quando tomam consciência de que não têm conhecimentos suficientes para actuar nas áreas de negócio a que se propõem", acrescenta, considerando que alguns destes profissionais têm dificuldade em encontrar ideias que se coadunem com as suas competências, habilitações e experiência profissional. "Mas a ANJE tem conseguido estimular o espírito empreendedor junto de todos os candidatos", revela. Os consultores apoiam-nos na conversão das ideias em planos de negócio, procurando adaptá-lo às características pessoais do promotor e ao mercado em que vai actuar.
Segundo Cottim Oliveira, o programa tem sido muito valorizado pelos participantes. "Trata-se de uma oportunidade que estes profissionais reconhecem claramente, especialmente quando estão efectivamente determinados a criar uma empresa", diz. Foram muitas as pessoas que perderam o seu emprego na Qimonda. A ANJE acredita que até ao final deste ano, data de término do programa, terão mais profissionais interessados em participar na iniciativa. "O empreendedorismo é a via mais expedita para gerar investimento, estimular a procura, criar postos de trabalho e aumentar a confiança dos agentes económicos", explica.

Cerca de 300 mil micro, pequenas e médias empresas portuguesas são responsáveis por quase dois milhões de postos de trabalho, segundo Cottim Oliveira. "Além disso, os grandes exemplos de competitividade, inovação, cultura de risco e potencial de internacionalização vêm, precisamente, de algumas PME que parecem ter entendido melhor os desafios da economia do crescimento", acrescenta. Por isso, acredita ser fundamental a criação de condições propícias ao crescimento do empreendedorismo. "Numa altura em que o desemprego se intensifica, aumenta também a importância de programas que facilitam a iniciativa empresarial a quem perdeu o emprego."
O membro do conselho de gestão da ANJE deixa alguns conselhos para que Portugal tenha um ambiente mais favorável ao empreendedorismo. Para Cottim Oliveira, é fundamental tornar o sistema fiscal menos pesado, complexo e instável, reduzir os custos de contexto da actividade empresarial, adequar os incentivos públicos à realidade das "start-ups" e promover um ensino que estimule o espírito empreendedor. Mais: deve-se estimular uma maior proximidade entre universidades e empresas, apostar numa legislação laboral mais flexível, diminuir a burocracia e tornar mais célere a aplicação da justiça.

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