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terça-feira, 1 de novembro de 2011

O estudo do empreendedorismo

Pouca gente sabe, mas o empreendedorismo é um dos temas mais estudados ultimamente na academia no campo das Ciências Sociais Aplicadas. Embora não haja ainda unanimidade de que o empreendedorismo possa ser compreendido cientificamente, a quantidade de periódicos acadêmicos internacionais sobre o tema vem crescendo a cada dia. Para entender melhor esse interesse crescente, descrevo a seguir os principais campos de estudo relacionados direta ou indiretamente com empreendedorismo.

• Criação de novos negócios. Existe um certo consenso de que o começo de um novo negócio exige competências e habilidades que são diferentes da fase de crescimento de um negócio já existente. Para muitos estudiosos, o empreendedorismo só pode ser aplicado ao fenômeno do começo de um negócio, quando não existia nada antes.

• Micro e pequenas empresas. É uma das principais categorias do empreendedorismo. Reúne estudos relacionados à sobrevivência e à gestão de empresas de pequeno porte e, em vários casos, o empreendedor individual ou autônomo. Nos Estados Unidos, compreende também as empresas de porte médio.

• Empreendedorismo corporativo. Estuda o fenômeno da geração de novos negócios dentro de organizações já existentes, sobretudo as de grande porte. Abrange também estudos sobre clima interno de estímulo à atitude empreendedora de funcionários (intraempreendedorismo) e as estratégias de natureza empreendedora das organizações.

• Empreendedorismo social. São estudos relacionados com empreendedorismo no terceiro setor, explicando as diferenças entre empreendimentos com e sem fins lucrativos. Também abrange conhecimentos relacionados com o setor 2,5, ou seja, empresas com fins lucrativos.

• Empresas familiares. Considerado por muitos um campo de estudo próprio, relacionado indiretamente com empreendedorismo, procura compreender o fenômeno por trás de processos sucessórios entre gerações e a profissionalização da gestão de empresas.

• Franquias. Também considerado um campo de estudo ligado a empreendedorismo, procura entender as particularidades desse modelo de negócio na expansão de empresas já existentes, em que se replica de forma estruturada um modelo operacional bem-sucedido.

• Políticas públicas. Tema com interesse crescente na comunidade acadêmica, estuda os efeitos positivos e negativos de ações do governo sobre as empresas de micro, pequeno e médio portes. Muito baseado em estudos macroeconômicos de cada país ou localidade.

• Capital de risco. Campo de estudo com vida própria, relacionado com empreendedorismo. Concentra os interesses no funcionamento dos modelos de capitalização de empresas, incluindo o capital semente usado no início dos empreendimentos, os fundos de investimento de risco, o private equity e a oferta pública no mercado de ações.

• Empreendedorismo internacional. Especializado em estratégias adotadas por pequenas e médias empresas para a expansão internacional, abordando aspectos de diferenças culturais, regulamentação, infraestrutura, comércio exterior e modelos de negócios.

• Empreendedorismo feminino. Aborda questões de gênero e suas diferenças ao empreender, incluindo o papel da mulher na sociedade, a inserção social e as características psicológicas da mulher empreendedora.

• Empreendedorismo étnico. Estudo do fenômeno do empreendedorismo em comunidades de minorias raciais, abrangendo as relações sociais e culturais, os tipos de negócio comuns em cada grupo, os modelos de gestão para o desenvolvimento e o crescimento desse tipo de negócio.

• Ensino de empreendedorismo. Concentra-se na explicação do processo de desenvolvimento de competências e habilidades empreendedoras e as relações com o processo formal de ensino. É subdividido por fases do desenvolvimento humano.

• Empreendedorismo e idade. Estuda o surgimento do viés empreendedor em duas faixas etárias, o jovem e a terceira idade. Foca as características dos empreendimentos iniciados, o processo decisório que leva a empreender e os efeitos das particularidades típicas de cada idade no empreendedorismo.

• Empreendedorismo tecnológico. Tem interesse em novos negócios na internet, baseados em tecnologia da informação e negócios de alto impacto. Em muitos casos está inserido ou conectado com estudos sobre inovação, mas fora da área das ciências.

• Inovação. Área de estudo paralela ao empreendedorismo, porém com alta aderência com empreendedorismo tecnológico. Direcionado para o entendimento do processo de inovação em ações de pesquisa e desenvolvimento, proteção intelectual, transferência de tecnologia, incubadoras e parques tecnológicos.

Existem outras áreas de menor expressão que também reúnem grupos específicos de estudiosos e pesquisadores. A verdade é que o empreendedorismo como campo de estudo é muito amplo e aberto a uma enorme variedade de temas de interesse da comunidade acadêmica, que busca explicações para um dos mais relevantes fenômenos da economia mundial.

domingo, 25 de setembro de 2011

Empreendedor realmente tem independência?

Esse desejo, embora tenha contribuído para muitas histórias de sucesso, também representa uma das frustrações de quem é dono de um negócio próprio

Em homenagem ao mês da independência, dedico o artigo deste mês ao esclarecimento de um tema que costuma ser mal interpretado e compreendido pelos futuros empreendedores. Afinal, o que é independência?

A cada turma de alunos que desejam seguir a carreira empreendedora, logo no primeiro dia de aula, eu pergunto os motivos que os levam a escolher esse caminho. Independência é uma das palavras mais citadas, mais do que senso de realização, mais do que sonho atendido e bem mais do que dinheiro. Ao explorar melhor os motivos que eles usam para justificar esse desejo por independência, as respostas caminham, inexoravelmente, para a insatisfação com os atuais empregos, uma infelicidade diretamente proporcional ao grau de autocracia imposto pelos chefes. Suas ideias são pouco consideradas, desestimuladas, podadas e até mesmo ignoradas. A convicção de que se tivessem mais independência poderiam fazer mais pela empresa acaba alimentando, por um lado, a frustração pela falta de liberdade e por outro lado, o desejo pelo negócio próprio.

Bem, aqui vai o meu primeiro torpedo de desilusão. Embora esse desejo esteja por trás de muitas grandes histórias de empreendedores de sucesso, também representa uma de suas primeiras frustrações, ao se darem conta do que efetivamente significa ser dono de um negócio próprio. Minha tarefa aqui é explicar um pouco porque esse desejo de independência não passa de um mito.

Em primeiro lugar, nem todos sabem direito o que fazer com a liberdade. Acredite: muitas pessoas simplesmente se sentem totalmente perdidas e desorientadas quando lhes é dada a total liberdade. Sobretudo aqueles que aprenderam, ao longo de toda sua vida, que o mundo vai dar-lhe as regras e as referências necessárias para garantir que vão direcionar seus esforços na direção correta. Para muitas pessoas, não basta apresentar as metas, é preciso também dizer como atingi-las. Essas pessoas não se sentem bem guiando os outros, e sim seguindo os outros.

Em segundo lugar, eliminar aquilo que o deixa infeliz no trabalho não necessariamente vai levá-lo a ser mais feliz. Empregados infelizes no trabalho porque não se dão bem com o chefe podem não se tornar felizes se a convivência for interrompida. Essa fixação por se livrar do patrão pode dar uma falsa impressão de que, como empreendedor, o fato de não ter chefe garantirá sua satisfação. O descontentamento com o chefe não pode ser confundido com a necessidade de liberdade. Talvez uma simples mudança de emprego possa resolver o problema. Isso nos faz questionar essa situação de liberdade. Quando você diz que quer ter mais independência, de quem exatamente você quer ser independente?

Em terceiro lugar, o empreendedor não é nem de perto tão independente quanto ele gostaria de ser. Ele acaba descobrindo que, na verdade, depende mais ainda dos outros. Depende do cliente, pois ele precisa comprar seus produtos ou serviços; do fornecedor, que precisa ser confiável e de qualidade; dos funcionários, de cuja mão-de-obra precisa; dos sócios, com quem divide responsabilidades; do governo, de parceiros e até do concorrente.

Em quarto lugar, enquanto a independência pode ser interpretada no começo como liberdade, depois será traduzida como responsabilidade. E o peso da responsabilidade é grande demais para algumas pessoas. A liberdade pode dar a impressão de que o empreendedor faz o que lhe dá na cabeça. Afinal, a empresa é dele, certo? Bem, isso é só impressão. Na verdade, o empreendedor se dá conta do quanto outras entidades dependem dele e de sua empresa. Algumas pessoas que seguem o caminho do negócio próprio mais cedo ou mais tarde se dão conta de quantas famílias dependem do salário que ele paga aos funcionários, de quantas empresas só existem por causa do produto ou serviço que ele coloca no mercado ou das compras que ele faz. Encarar essa responsabilidade de frente é para poucos.

Em quinto lugar, independência é diferente de autonomia. Você pode não ter toda a liberdade desejada, mas pode ter autonomia, porque isso não tem nada a ver com liberdade e independência. Autonomia diz mais respeito ao poder de tomar decisões por conta própria. Você continua dependendo de funcionários, clientes, fornecedores e parceiros, mas a decisão final é sempre sua. Claro que você precisa considerar uma série de fatores ao tomar uma decisão, mas ninguém tira do empreendedor que, no final, é ele quem decide. Os empresários até apreciariam mais independência na condução dos seus negócios, mas o que os leva a empreender mesmo é a autonomia.

Eu lembro que, quando era pequeno, ficava deslumbrado com os tanques, uniformes e aparatos militares que sempre marcavam presença obrigatória nos desfiles de 7 de Setembro. É claro que eu não tinha a consciência de que, em pleno regime ditatorial, liberdade era o que menos tínhamos. Olha só a ironia. Comemorávamos o dia da independência sob pleno regime militar. E hoje? A liberdade que temos para escolher nossos governantes já provou ser um sistema melhor do que o anterior? Sem dúvida a democracia trouxe a tão desejada liberdade de escolha. Mas, quando pensamos na diferença entre independência e autonomia, vemos que a independência não necessariamente garante que as pessoas sejam maduras o suficiente para exercer a autonomia da escolha. Autonomia pode ser entendida como a sabedoria de usar bem a liberdade conquistada. Livre-se do seu chefe abrindo um negócio próprio, mas saiba que, para usar bem a liberdade conquistada, o empreendedor precisará amadurecer sua autonomia, e aí está um grande e necessário aprendizado.

* Marcos Hashimoto é professor de empreendedorismo do Insper, consultor e palestrante (www.marcoshashimoto.com)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A motivação dos empreendedores, nem todos eles querem ser bilionários - veja quais são os perfis dos empreendedores brasileiros

Recentemente, a revista Forbes publicou a lista dos homens mais ricos do mundo. Uma olhada rápida e podemos perceber que a maioria dos bilionários são empreendedores. Entre os 30 brasileiros, metade deles são donos dos seus próprios negócios. A característica dessa lista nos leva facilmente a generalizar a conclusão de que as pessoas escolhem o empreendedorismo como uma forma de ficar rico.

Estudos acadêmicos de todo o mundo mostram que essa ideia é equivocada e que, na verdade, os verdadeiros empreendedores estão em busca de outras realizações. O que percebemos é que os empreendedores brasileiros podem ser classificados em quatro tipos na sua relação com o dinheiro:

1) O empreendedor por necessidade, aquele que precisa do dinheiro para sobreviver, não encontra outra forma de remuneração por dificuldades para se inserir no mercado de trabalho e acaba adotando o caminho do empreendedorismo como forma de se sustentar. Geralmente, esses empreendedores não desejariam ter um negócio próprio se pudessem escolher. Sua taxa de mortalidade é alta, pois ou o empreendedor abandona seu negócio na primeira oportunidade de emprego que aparece ou acaba quebrando mesmo por falta de competência, de estrutura ou porque a oportunidade não era sustentável ao longo do tempo.

Existe uma dualidade na percepção de valor do dinheiro para esses empreendedores. Ou eles se classificam como os artistas que veem em sua atividade uma necessidade para sobreviver, mas dão importância a coisas mais “nobres” na vida, enquanto existem outros que gostariam de ganhar mais dinheiro e conseguir respirar um pouco, mas não conseguem por pura falta de competência. Estes precisam se contentar em conseguir terminar mais um dia sem passar fome. Nessa categoria se encaixam os empreendedores autônomos, artistas e alguns profissionais liberais, microempreendedores e empreendedores informais.

2) O empreendedor pós-sobrevivência. Trata-se daquele que começou como empreendedor por necessidade e consegue superar o sufoco dos primeiros anos, quando a instabilidade é alta, e a fragilidade, também. Normalmente às duras penas, esses empreendedores conseguem estabilizar seus negócios e atingir um nível de volume de negócios que lhes garante um ganho mínimo sem sobressaltos. Esses empreendedores têm medo de que seu negócio saia do controle. São traumatizados pelos primeiros anos de vida do empreendimento, passaram por muitas dificuldades e respiram com alívio a estabilidade adquirida.

Apesar de os empreendedores normalmente serem conhecidos pela predisposição para assumir riscos, esse tipo de empreendedor não tem a mesma propensão. Para ele, perder o negócio é um risco proporcionalmente muito grande e, por isso, ele se contenta em ter uma empresa pequena, mas que ele consiga controlar e manter. Para eles, o negócio é um meio de vida e não vemos neles muitos arroubos de crescimento. Os pequenos negócios de sobrevivência, como mercadinhos de bairro, postos de gasolina, lojas de varejo, salões de cabeleireiro e outros, se encaixam nesta categoria.

3) O empreendedor por oportunidade é aquele que, embora bem empregado e com ótimas perspectivas de carreira no emprego tradicional, identifica uma oportunidade e cultiva há tempos o sonho de empreender e ser o dono do próprio nariz. Eles normalmente se prepararam bem antes de se lançarem como empreendedores. Adquirem formação específica, ficam sempre de olho nas janelas de oportunidade, se mantêm sempre informados, acumulam capital e, quando chega o momento, largam o emprego para perseguir seus sonhos. A taxa de mortalidade desses empreendimentos é baixa porque os riscos proporcionais são bem menores do que os empreendedores por necessidade. A relação com o dinheiro que eles constroem varia em função de outros elementos que lhes dão satisfação, como equilíbrio de vida, hobbies e passatempos, família, viagens, prazer do trabalho, experimentação de coisas diferentes, vida social, entre outros. Para esses empreendedores, o dinheiro é bem-vindo sempre e cada vez mais, porém sua importância cai na medida em que ele atinge uma remuneração que lhe dá um bom padrão de vida, a ponto de ele poder se concentrar em outras coisas que lhe dão satisfação.

O sucesso, para esses empreendedores, não é exclusivamente o financeiro, e sim o equilíbrio propiciado por outras conquistas, nas quais o dinheiro é apenas um desses componentes. Esses empreendedores querem que seus empreendimentos cresçam, mas não muito. Não se veem como donos de empresas gigantescas, das quais acabarão se tornando escravos. Ao contrário, preferem se manter como médias empresas em um crescimento orgânico, mas excelentes em seus campos de atuação. Por isso mesmo, esses empreendedores não se dão muito bem com investidores de risco, pois invariavelmente seus objetivos entram em conflito. Enquanto o investidor quer ganhar muito dinheiro e rápido, o empreendedor troca facilmente seus objetivos de maior ganho por uma causa social ou um bem maior que o seu negócio pode gerar. Para eles, empreender é um estilo de vida, e não uma forma de enriquecer. Entram nessa categoria empresas de tecnologia, serviços baseados em capital intelectual, negócios com médio a alto grau de inovação e nichos de mercado de alto padrão.

4) Empreendedores de alto crescimento. Esses são os que querem sair na lista da Forbes. Para esses empreendedores, não há limite para crescer. Querem crescer muito e rápido. Representam o objeto de desejo de grandes investidores, pois compartilham os mesmos objetivos e reconhecem os demonstrativos de resultados como o principal, senão o único, parâmetro de desempenho. Esses empreendedores abrem mão de muita coisa para se dedicarem aos seus negócios. Procuram estar sempre bem relacionados com pessoas de poder, valorizam o prestígio e são vaidosos. Para eles, não há outro objetivo em ter um negócio senão a de proporcionar a liberdade de comprar tudo que de bom e de melhor o dinheiro possa obter e acreditam fielmente que o dinheiro pode tudo em uma sociedade capitalista.

Há quem questione esses empreendedores e seus valores e princípios, mas há uma grande quantidade de pessoas que se espelha em seus exemplos e cultivam os mesmos valores e objetivos. A mídia especializada trata de reforçar a mitificação destes empreendedores, dando ênfase e importância às suas histórias de vida e realizações, levando a uma questionável concepção do que é ter sucesso na vida. Nessa categoria está qualquer tipo de negócio, desde que seja grande ou esteja na rota do alto crescimento.

* Marcos Hashimoto é professor de empreendedorismo do Insper, consultor e palestrante